POESIA [LITERATURA] & POLÍTICA – e seus demônios

Antonio Aílton

A polêmica entre literatura e política, ou, especificamente, entre poesia e política, muito provavelmente sempre existiu. Basta pensarmos na questão paradigmática da expulsão do poeta da república platônica, relativo ao que eles, os poetas, poderiam influir na educação, na justiça, na opinião e no bem comum da Polis, da Cidade.

É claro que o poeta ao qual Platão se referia não era exatamente o poeta como se entende agora, o lírico e sua escritura – ou que seja o chamado “antilírico”, ou o antimimético, o qual não espelha seus mundos na realidade, mas na linguagem, no  teatro da linguagem. O filósofo ateniense estava se referindo, sobretudo, aos poetas que mimetizavam a vida em cantos heroicos ou representações teatrais, os épicos e trágicos, bem como ao fato de que, sabemos, também a filosofia estava imersa em camadas de poesia e simbólica mítica, como conhecemos dos pré-socráticos.

Os poetas eram responsáveis pela educação da comunidade, de seus valores e ética, em que a poesia oral ou teatralizada, contada e cantada, tinha grande papel. São as histórias educativas dos heróis, suas peripécias e suas quedas, de paixões violentas (o pathos/o patético), em lamentos, o terror e temor dos deuses, o que poderia tornar pessoas inaptas à proteção e administração da Polis. Os poetas, provocadores de tais suspeições, do simulacro daquilo que é verdadeiro, que não respeitassem os padrões da Cidade, deveriam ser expulsos. O poeta que deveria permanecer na Cidade, segundo Platão, seria então aquele “mais austero e menos divertido, que corresponda aos nossos desígnios, só imite o estilo moderado e se restrinja na sua exposição a copiar os modelos que desde o início estabelecemos por lei, quando nos dispusemos a educar nossos soldados” (Platão, Livro III, IX, 398a).

Mas o questionamento do caráter propriamente político da poesia conforme pensamos agora acirrou-se, certamente, a partir das vanguardas, em sua relação com as novas formas do vivido, da produção material e temporal, e dos diversos modernismos. Isto é assunto já amplamente debatido e comentado. A questão é que hora ou outra o assunto retorna, como se esse conhecimento ou essa experiência nunca tivesse acontecido, sido escarafunchado. Até porque, sempre teremos novos artistas, novos poetas adentrarão a cada instante a seara secular da poesia, e muitos continuam fazendo-se as mesmas perguntas já lançadas pelo fazer poético, remoídas na experiência, mas ainda ponderáveis na intimidade do fazedor.

A questão não é de se devo ou não fazer poesia “engajada”, porque escrevemos conforme nossa necessidade, sentida como incendiária inexorabilidade, e a partir dos horizontes despertos com os quais relacionamos essa necessidade. A maior riqueza da poesia é sua liberdade temática e experiencial. Cada um escreve sobre o que quer, do jeito que quer, com os recursos que lhe aprouver ou lhe sejam competentes. Se o escrito, o poema, vai prestar ou não, é outra coisa. Se vai ter uma alta tensão, densidade, percepção e sensibilidade, é outra coisa. Aí, é o poeta (@ poeta) que responde por seu pulso, vitalidade e consciência.

A experiência da poesia engajada de maior sucesso talvez seja a de Maiakovski (1893-1930). Então, quem pretende seguir essa linha, de modo mais profundo, no mínimo deveria conhecer essa experiência, e estudá-la. Como é que o cara quer fazer poesia “engajada” e não passou nem uma noite debaixo da rede de Maiakovski? Que este nos conceda um exemplo:

                           Eu
 
Nas calçadas pisadas
                        de minha alma
  passadas de loucas estalam
calcâneos de frases ásperas
                Onde
                         forcas
                    esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
               pescoços de torres
           oblíquas
só
 soluçando eu avanço por vias que se encruz-
                                              ilham
à vista
de cruci-
fixos
 
          polícias
 
 
(Maiakovski, Poemas. Ed. Perspectiva, 1982. Tradução de Haroldo de Campos)
 

Então, muita coisa do que se faz hoje é glosa e pastiche.

Essa aí é poesia que não precisa de nenhuma pecha.

No Brasil, para além do modernismo e seus anseios, há duas grandes experiências também da poesia engajada: a de Ferreira Gullar e a Marginal.

Gullar chegou mesmo à crise, em determinado momento da sua vida, porque, como falar ao povo (neste caso, a população mais carente de acesso a tudo) através dessa poesia livresca? E pior ainda, COMO TORNAR A POESIA ÚTIL (porque esse é o princípio da poesia engajada)? Quando é, afinal, que a poesia virará panfleto? Essa é a grande chave do poeta “engajado”, porque ele deseja passar um recado, uma lição ou uma moral através da poesia. E mais: na cabeça dele, é inconcebível que esteja fazendo algo que não seja útil, isso é compreensível. E quem lhe pode dizer algo diferente, com que autoridade? Se ele vai ou não escrever poesia útil e didática é outros quinhentos. Ferreira Gullar experimentou falar ao povo inclusive através do cordel. Ainda bem para a grande poesia que ele descambou para o que conhecemos, aquele “Agosto 1964” e aqueles dois livrinhos estupendos: Dentro da Noite Veloz e Poema Sujo. Como falar ao povo que não tem condições de ler ou de chegar ao livro?… Com qual linguagem? Seria através de qual tipo de poesia “engajada”? O poeta engajado ainda precisa se fazer essa pergunta. Ou não?

A experiência da poesia marginal, já a conhecemos bem. Poesia contraideológica para as ruas e para a possível apreensão do espírito das ruas. Ótimo. Mas grande parte dessa produção só pode ser considerada na pregnância do período, do contexto histórico-[contra]cultural do qual ela se torna inseparável.  Dela, no momento em que vivemos, o que nos fala é, principalmente, o lastro do contexto que a história emenda, e aí está também sua força mobilizadora, como gesto.  Não a lemos, portanto, fora dessa pregnância da história e da performance. E lemos as camadas lúdicas com a clave de leitura da carnavalização. Plausível, não é pouco.

Infelizmente, os maiores tiveram um tranco na vida um bocado cedo: Torquato Neto (suicídio), Paulo Leminski (cirrose contumaz). E Ana Cristina César, que foi cooptada a compor o quadro e parte do contexto, mas está além da poética marginalista. Alguns desses poetas, porém, estão bem vivos, e as marcas transgressoras e arrebatadoras da Poesia Marginal ficaram definitivamente como uma das forças de influência e miragem na poesia brasileira, em seus bons diálogos e no que pôde fecundar. No aspecto democrático da produção e da materialidade, algo se perdeu. Rolaram algumas pedras no caminho da chamada poesia marginal. Por exemplo: quanto custa hoje um livro desses caras, do Leminski, do Waly Salomão, do diplomata Chico Alvim? A brochura Quampérios, do Chacal, está oferecida num site por 500 reais! Tudo bem, livro raro… É o jogo da cultura. Penso que esta questão é um aspecto importante a ser pensado para quem se insere no grito (de socorro) da comunidade, quase sempre exclusa, e na prática deixada ao largo do seu inalcance. Recorro, pois, a uma antologia mais barata e muito boa, organizada pelo Ítalo Moricone. Ou ao triste download.

Subversão, oposição, transgressão temática, experimentação e vitalismo (viver a poesia; poetizar a vida) são as faces mais óbvias da política na arte, na literatura, na poesia. Nestes casos, querendo ou não, lhe concedemos um brevê utilitário, de bandeira, rumo ao pêndulo da realidade e da experiência. E isso muito provavelmente intensifica-se ainda mais quando os inimigos estão às portas. Aí, mais uma vez, ao poeta ainda cabe ser poeta. Mas ele pode ir às ruas gritar e agir em prol da dignidade humana e da justiça social de maneira mais prática, porque certamente terá muito mais resultado.

Aqui entramos também naquele problema da contradição de muitos poetas que são ótimos esbravejadores de papel. Muitos inclusive achando sua poesia mais importante do que dos outros, os caretas alienados, ou achando que sua realidade de asfalto e apartamento é a única que existe (em geral urbana, às vezes distante daquele Brasil duro, até com ojeriza das comunidades rurais ou sertanejas, por exemplo) e por aí vai.

E isto quando precisamos levar em conta que a proposta de uma poesia verdadeiramente engajada pressupõe um lastro na realidade prosaica (sobre isso Gullar já escreveu e realmente praticou em certos momentos de sua vida), o que nos lança não somente na questão da atitude e na generosidade humana do poeta, mas também nas questões de uma escrita que se acasala com o prosaico, o grito comunitário, pedestre e vital.

Bem sabemos, no entanto, que há um outro tipo de política intrínseca à poesia (como às artes em geral), se pensarmos naquela ideia de Jaques Rancière, dos três regimes que confluem para o dizer sensível: o regime estético, o ético e o político. A partilha do pão, dos recursos, dos equipamentos e do direito de voz; a distribuição e também a negociação da dignidade, do poder (por exemplo: o poder das vozes, dos espaços, etc.), da sexualidade (dos corpos e dos gêneros), dos valores e das experiências que estão no cerne da política também estão no espaço da escritura, na página.

Há, então essa política sutil da fala poética, das vozes, das formas, corpos e paisagens que se com-figuram esteticamente para gerar o clarão da beleza permanente.

É assim que podemos compreender uma política no centro, por exemplo, da poesia de Manoel de Barros, que dá voz aos espaços esquecidos, ao mínimo, ao velho, à ecologia dos entes, à pequenez frágil, ao rastejante. É assim que a forma da redondilha dá voz ao grito comunitário e popular. Mas também é claro que uma poesia que opta pelo formalismo, pela suspensão da experiência em favor da exaltação da linguagem deve pagar o preço de não ser nada mais que exaltação da linguagem. E seu cunho político, comunitário e experiencial se arrefece em favor da liberdade do indivíduo de fazer o que quiser com sua poesia e sua palavra. Ou seja: o regime estético necessariamente suplantará o regime político nessa arte. Porém, sim, qualquer um tem o direito irrevogável de conceber sua poesia como ludismo ou como theatrum da linguagem. Neste caso, porém, sua transgressão (se isto ainda for possível) será politicamente direcionada para esse mesmo espetáculo da arte, da cultura e da linguagem.

Uma arte com a diretriz política mais evidente e contundente parece ser mais profícua nos momentos em que surgem forças catalizadoras contraditórias. É o que acontece em todos os tempos, é o que acontece nos períodos sensores e beligerantes da ditadura, seja aqui, no Chile, em Portugal, na Espanha, como os acontecidos.

Passados aqui os anos de estertor, a poesia entrou numa fase de busca de outros caminhos, na pós-ditadura, de retomada, e, em alguns casos, de afasia. Chegou-se a falar em crise ali pelos anos 1990 – 2000 e pouco. Trata-se de certa poesia, é claro, a poesia standard. Porque, de resto, a poesia sempre esteve em crise, em questionamento, em briga consigo mesma, com suas perdas, cifrações, desencontros de linguagem e inaceitações. Walter Benjamin já falava disso acerca da lírica desde Baudelaire. No entanto, com ou sem crise a grande poesia brasileira nunca deixou de ser feita. Hoje, parece não restar dúvida de que entramos num novo período de produção e a coisa explodiu em efervescência, disputa, livros, blogs e afetos. Sem filtro, claro – para o bem de todos e para uma pontinha de mal aos egos preguiçosos.

A entrada num novo momento de polarizações, os movimentos sociais, das pessoas e dos corpos, a conscientização e reivindicação de direitos, a força das periferias e dos subalternizados, a redescoberta urbana da oralidade (o sertão sempre esteve consciente disso), tudo isso encaminha a poesia para evidenciar outra vez sua face política. Cabe ao poeta, num mundo de liberdade infinda e direito de todos à voz, suar para encontrar aquela voz primeira, intensa e necessária da poesia, ou pelo menos a sua. A voz da grande poesia, diga-se, porque, fora do seu domínio, o que se faz é, no máximo, pastiche e panfleto bem-intencionado.

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