IGNACIO XAVIER DE CARVALHO, JULES LAFORGUE E O SIMBOLISMO IRÔNICO

Antonio Aílton

Tudo indica que o maranhense Inácio Xavier de Carvalho (São Luís, 26/08/1871 – Rio de Janeiro, 17/05/1944), praticante de um simbolismo diferenciado e inusitado para o Brasil, pode ter sido mais um dos autores cuja poesia tem algum influxo do franco-uruguaio, Jules Laforgue (Montevidéu, 16/08/1860 – Paris, 20/08/1887).

Laforgue compõe, juntamente com Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Verlaine e Corbière, o cenário do grande Simbolismo/Decadentismo francês, poetas que abriram as portas da modernidade e influenciaram grandes linhas da poesia que conhecemos. Jules Laforgue é o carro-chefe do simbolismo “coloquial-irônico”; e, mais que irônico, de tom patético (isto é, de um pathos propositalmente carregado, exagerado), humor corrosivo e viés cotidiano, em contraste com o simbolismo “sério-estético”, austero, classicizante, sublimizante, e preciosista, que costumam nos apresentar nos bancos escolares – as duas correntes do simbolismo expostas pelo crítico Edmund Wilson, no seu O Castelo de Axel (1931).

            O Simbolismo, por sua abertura para a comunicação das percepções únicas e pessoais através dos construtos simbólicos e peculiares de cada um – e não de um corpo simbólico social, já dado –, permitiu uma fusão de perspectivas e uma heterogeneidade de vozes muitas vezes desconsideradas. Fusões, inclusive, com o realismo e com o naturalismo! – Transformados e transfigurados pela linguagem do autor que os costura, e por isso mesmo, por exemplo, Baudelaire pôde ser considerado um dos grandes primeiros poetas da modernidade, que incluiu a cidade e seus horrores, o flâneur e a prostituta em sua poesia. E por isso também temos Jules Laforgue, Rimbaud e Cesário Verde.

            Em suma, o Simbolismo não excluiu o riso da poesia, mas esse riso é aquele que ri da sua própria condição [humana], e permite que o poeta ria de si mesmo, da sociedade, sua hipocrisia e comportamentos, da humanidade patética. É nessa vertente que se encaixa grande parte da produção de I. Xavier de Carvalho, um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras, cuja obra tem sido relembrada pelas publicações do centenário dessa Academia, em 2008, e por pesquisadores como Ricardo Leão, Patrícia Durans e Leopoldo Vaz, os quais têm, como diz o próprio Leopoldo com base na voz de Pierre Nora, “evitando que o presente se transforme num processo do esquecimento e da perda de identidades”¹.

            Inácio Xavier de Carvalho, ou simplesmente Xavier de Carvalho, era, além de poeta, contista, Juiz de Direito, formado em Recife, Promotor Público, Professor de Literatura, Francês e Direito, e colaborou com jornais da sua época. Participou da Oficina dos Novos, o grupo que confluiu para a fundação da AML, em agosto de 1908, instituindo aí a cadeira patroneada por Gonçalves Dias, e hoje patrono da cadeira 37. A verdade é que esse intelectual múltiplo permaneceu pouco tempo na capital maranhense. Em périplo pelo Brasil, passou por Minas Gerais, Amazonas, Pará, e depois transferido como magistrado para o Rio, onde faleceu.

            O livro inicial de Xavier de Carvalho foi Frutos Selvagens(1894), de técnica parnasiana e pendor transitivo entre o Romantismo e o Simbolismo, tendência malvista por alguns críticos e leitores maranhenses, mas que não conseguiu empanar sua obra. Seu segundo livro é Missas Negras, de 1902, livro curto, de apenas 50 páginas não numeradas, mas do qual disse o escritor Jomar Moraes (prefácio de Missas Negras, 2008): “pequeno-grande livro, no qual contém alta e grande poesia”. A última publicação do poeta foi o opúsculo Parábolas para bolas (1919). Um poeta de produção concisa, portanto, cujo poesia mais curtida pode está naquele livro de 1902.

Missas Negras, apesar do título que, na perspectiva das atuais questões etnolinguísticas, poderia ser considerado infeliz, é realmente um livro excepcional. Assim Ceres Costa Fernandes o avalia, na orelha da edição mais recente:  “Filia-se ao decadentismo na consciência da ruína cultural, no culto ao satanismo, no pessimismo fin-de-siècle, na ruptura com o tradicional; é simbolista na linguagem, que privilegia a transcendência, as percepções sensoriais, a metáfora, a aliteração, opondo, contudo, a cor negra à brancura mística de Cruz e Sousa; a poesia da decomposição de tintas fortes, agressiva e por vezes escatológica, prenuncia Augusto dos Anjos.”

É desse livro que recolho, de entre outros possíveis, alguns trechos deste poema:

                        DOLOR

Vai-se espalhando de boca em boca

                        Que sou feliz…

            E eu fecho ouvidos à frase louca

Que a plebe diz

Julgam-me os homens num paraíso

Num céu fugace,

Só porque notam que existe o Riso

Na minha face

Por que te assentas nas bases frias

Em que te pões?

Mundo inconstante, por que te guias

Por impressões?

Dentro de um riso, quantas mil cruzes

Guardam-se às vezes?

Quantas venturas, em vez de luzes

Destilam fezes?

[…]

Dentro dos astro em vez de cores

Sinto pauis

E sobre as rosas em vez de odores

Encontro pus…

[…]

Dor implacável, por que me feres

Funesta assim?

Por que apagaste té as mulheres

Dentro de mim?

[…]

Dói-me deveras, com a vida morta

Sem coração

Andar com a alma de porta em porta

Pedindo pão

Dói-me, em verdade, na juventude

Morrer no bojo

Das cinco tábuas dum ataúde

Feito de nojo!

            Verdadeira canção cuja estrutura de versos longos (9 sílabas) e curtos (4 sílabas) – sendo os longos, na verdade, a junção de dois tetrassílabos, constituindo uma pausa interna (cesura) na quinta sílaba – submetem-se justamente ao ritmo e à extrema musicalidade que o Simbolismo sugere, próximo ao ritmo do Chanson d’Automne, de Verlaine. Mas aqui, o autor traz notas grotescas de um Decadentismo degradante, bem como daquela condição humana e do riso patético presentes em Laforgue. Há outros, traços sarcásticos e galhofeiros no decorrer do livro.

A questão não é saber se existe aí uma leitura do Simbolismo francês, pois este era leitura corrente e influência da época, já comprovada, mas de que corrente se trata e se Xavier teria realmente lido Laforgue. O simbolista Mallarmé, sabemos, tinha seus adeptos (Cruz e Sousa, Maranhão Sobrinho…), mas essa força de Xavier parece aproximar-se mais de Laforgue (sem o arsenal estilístico e a modernidade do poeta francês) e da própria raiz “maldita” baudelairiana, afastando-se de Mallarmé

            O livro-chave desse poeta mestre, Laforgue, que fertilizou a poesia de T.S Eliot e Pound, a arte de Duchamp e possivelmente a poesia do nosso Manuel Bandeira, Les Complaintes (Os Lamentos), foi lançado em 1885; e, entre outros livros, o também fundamental, L’Imitation de Notre-Dame la Lune (A imitação de Nossa Senhora, a Lua), em 1886. De difícil tradução, a meu ver essa obra ainda não tem tradução no Brasil à sua altura. O autor das Litanias da Lua apropriou-se da forma antiga do Lamento para escrever uma poesia que quebrou as próprias regras formais de sua época, através muitas vezes até de um fraseado considerado ingênuo, de explosões, diálogos, apanhados coloquiais populares e onomatopeias de rua. Disso Xavier apresenta pouco em sua poesia, mas há flagrantes da vida cotidiana formalizados bem patentes no autor de Missas Negras.

            Na impossibilidade de me estender aqui, ficando a gente apenas com uma pontinha do que podemos prosseguir em outros lugares, deixo mais um poema do nosso “Laforgue maranhense”:

O CÃO

Até nos cães!… – Faminto, conheci-o

Uma noite atirado no abandono,

Num queixoso ladrar falho de entono,

Exposto aos vendavais e exposto ao frio…

E eu tive pena e dó do cão sombrio,

E ajuntando-o do chão fiz-me seu dono…

Matei-lhe a fome e garanti-lhe o sono

Dentro das palhas de um colchão macio…

…Fiquei pobre, afinal… e o cão que, outrora,

Salvei da morte, me ladrava agora

Como a me dizer: “sustenta-me ou te mordo!”

Até que enfim, cheio de fúria imensa,

Mordeu-me ambas as mãos em recompensa

E de casa fugiu depois de gordo!

(I. Xavier de Carvalho)

Para saber mais a respeito do poeta Inácio Xavier de Carvalho, acesse:

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