Ricardo Leão e sua “Minimália ou O jardim das delícias”

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Sobre Minimália ou O jardim das delícias

Minimália ou o jardim das delícias tem seu lado irônico: um livro com 200 poemas cujas delícias (associadas geralmente aos aspectos eróticos e aos prazeres do corpo) estão fundamentalmente inscritas no corpo da palavra, no prazer da experiência escritural a que o leitor pode se entregar, mais que a qualquer outra manifestação explícita dos deliciosos “jardins”.

O jardim se torna essa possibilidade de gozo (ainda possível) do mundo na e através da palavra poética, de uma presença deste mundo criado pela palavra – profana, consciente e crítica, dessacralizada – e cujo centro não é o paraíso ou o inferno libertino, mas simplesmente um espaço de negociações e de sobrevivência que inclui o espelho. Ricardo, enfim, convida para sua poesia o espaço mundano, a ressonância política inclusive do corpo esvaziado (deus sexualizado ou o lado zero de Eros),

É noite no cosmos. /Somente eu percebo/ Que estou só e sólido/ No vácuo do corpo.

Apesar dessa carnalidade mundanal que se manifesta – ou que deseja se manifestar – à revelia dos nadas “atrás dos discursos” e dos tenros vazios que nos capturam às sombras da linguagem, como não poderia deixar de ser essa poesia estará lastreado pela obsessão das habitações da escrita e do imaginário (meta)poético. Entre a realidade e a escritura é que este poeta se localiza (“Esqueço/Meu corpo/No texto” – Espelho), como talvez, afinal, todos nós que lidamos com essa realidade especular da literatura, mas que nesse poeta em especial essa limiaridade lhe foi e se mostra cada vez mais marcadamente vital: “Habito o homem/Que ainda há em mim/(…) De, comigo, sê-lo./ Escrevo-lhe cartas/Sem selo, rua ou via” (Usança). Lembro-me aqui do poema-epígrafe Busca de Sandro Fortes: “É animal? Mineral? Vegetal? É real/ Ou imaginário? Ilusão? Pé no chão?/ O que vasculhas, o que perscrutas/ Além do teu próprio rosto, absorto? /Que outro, que corpo, que escopo? (…) Que temas, que fonemas, que dilemas?”. Ele nos diz muito das acomodações especulares, simbólicas e análogas, que Ricardo abre nas fendas no signo arbitrário.

As vozes furiosas/ Do mudo poema/ Gritam no silêncio/ Da carne trêmula./ Somente agora,/ Corpo de pássaro,/ Soluço vocábulos/ De um puro aço.      (Noturno)

Depois de Os dentes alvos de Radamés (2009), um poema narrativo, e do longo poema No meio da tarde lenta (2012), a proposta de Minimália se encontra em seus poemas-sínteses, não exatamente sintéticos (alguns o são), mas composições estabelecidas sobre um trabalho de concisão e contenção formal, sobretudo na extensão dos versos que, agora, não seguem a desobrigação discursiva geralmente espontânea, solene mas irregular, de No meio da tarde lenta, por exemplo. Ou o ritmo dissoluto, às vezes desembestado, de Os dentes alvos… Os poemas de Minimália resgatam uma regularidade tradicional, atualizando o corte que mede o verso e adensa o sentido do que cabe dentro dessa pancada mínima, ao mesmo tempo em que ressalta um investimento na sonoridade, uma tonância de rimas e correspondentes sonoros bem distribuídos.

Dir-se-ia que Ricardo refinou os instrumentos e adensou sua poética.

Não que o fato por si mesmo de investir neste processo construtivo (de aproveitamento construtivista) possa fazer alguém mais ou menos poeta, senão evidenciar tal técnica, mas no caso de Ricardo Leão lhe deu novo fôlego, um fôlego que flui e nos conquista, em uma leitura que se torna leve, pelo tamanho dos poemas, pela fluidez e abertura dessa linguagem, apesar de algumas imagens localizadas entre o estranhamento e a herança do hermético. Podemos assim compartilhar do entusiasmo do poeta que transforme essa poesia em delícia, e que me relata: “[Na feitura desse livro], a poesia tomou conta de mim, de forma incontrolável e diária. (…) uma sensação de plenitude, de poder sobre o verso e o verbo”.

Houve portanto uma mudança de rumo (para melhor) na poética de Ricardo, na exploração e na concretização de uma latência, ao que me parece, tanto no sentido de um “exercício de metalinguagem” que se amplia em exercício de linguagem, quanto de um dizer cada vez mais vigoroso, para além da clara e reiterada afirmação da “mudez”, em Minimália – do poeta mudo, do poema “mudo”, isto é: do grito que a linguagem contém e retém, ao ser impossibilitada de poder dizer TUDO –, num achado seguro para o exercício da pulsão poética e da (con)figuração do vivido.

Naquela retomada da forma-outra e da experiência especular, quer dizer, da tradição e do intertexto (talvez se possa falar de hipertexto), as quais possivelmente se tornaram parte fundamental e estrutural da escrita de Ricardo, encontramos um de seus grandes interlocutores: Nauro Machado. Não se trata apenas da dedicatória do livro, neste momento em que toda uma geração de poetas que conviveram com o grande bardo sentem o impacto de sua morte (acontecida em 28 de novembro de 2015), tampouco da obviedade dos poemas que lhe são dedicados ou fazem alusão a ele, como O terceiro dia, os Sonetos a Nauro, A Sagrada Família ou Dístico ao Silêncio. Trata-se, isto sim, de uma sutil presença que poderíamos chamar de “espírito” em certas imagens, em certa pronúncia, em certas retomadas da experiência poética – sem nenhuma angústia. Evidentemente a poesia aí não decresce, mas se ultrapassa e mais se eleva, sem esquecer a justa homenagem a quem Ricardo sempre teve reconhecimento. Assim,

Bêbada é a noite/Por entre as pálpebras/Da última manhã.       (Delirium tremens)

Na ressonância daquela tematização do duplo, do ser divido, tão característica de Nauro, tal como vibra nos poemas Usança, Sísifo, Anima Mea ou To be or not to be (Talvez jamais/ serei eu mesmo/ no verso a esmo)que lembra o poema O Parto, de Nauro: “Meu corpo está completo/o homem, não o poeta”). Como também, por exemplo, no gozo do Eterno em Big Bang, em Estestoscópio, ou na fortíssima imagem na confluência Nauro-Pessoa do futuro cadáver e do eterno que se lasca, no Imperativo:

É forçoso que me torne/  O meu futuro cadáver./ Que esteja vivo na morte/ E que o eterno se lasque.

A poesia de Ricardo não se restringe a esse diálogo, porém. A título de exemplo, quero ressaltar dois poemas, dos melhores, entre tantos excelentes do livro.

No primeiro, Zaratustra strikes again, composição de apenas um quarteto, Ricardo sintetiza séculos de itinerário do pensar e do pensamento humano, com o apoio da referência a Nietzsche, lembrando os escombros da crença no Homem metafísico, da essência de um homem deificado, como sujeito centrado, racional, imerso no vislumbre do Bem e do Mal, da Verdade (e do Belo), e sua queda de fundo niilista para os pés sujos da história, da violência (o homem é lobo do próprio homem, lobisomem), das muletas pragmáticas, do descentramento e da revolta – revolta às vezes com a própria condição demasiado humana. Por outro lado, a mesma figura de Zaratustra e a referência aos “anjos ateus” não deixa de nos remeter à mítica do gauche iluminado, e, com ela, ao gauchismo poético, tão bem explorados em nossa literatura pelo Poema de 7 faces, de Drummond e Com licença poética, de Adélia Prado: “anjos tortos”.

Já no poema Impeachment, onde inclusive aparece de novo a passagem do deus ao humano (uma constante a ser pensada), e que o liga ao gauchismo, de Zaratustra a Big Bang, etc., e à “encarnação” erótica, à sexualização, ou à “corrupção” transformadora de uma impassibilidade solitária e vazia, Ricardo consegue estabelecer uma correspondência entre as instâncias da subjetividade e as instâncias da objetividade, em que o ato particular do sujeito transforma-se em ato público, político, ou vice-versa: o contexto histórico-social (a atualidade do Brasil, diga-se), tem um correspondente na representação poética como tomada de consciência, e portanto uma decisão política da/na vida íntima do sujeito (o ego – de quem?, de qual “eu”? – está deposto). Bom lembrar também da superposição e correspondência de contextos e situações que amplificam as dimensões de sentido do poema: o “adeus” no mês de agosto, relacionado à deposição, evoca também e deixa em suspenso como provocação de fundo o “adeus” do agosto de 1954, adeus-suicídio de Getúlio Vargas, um ato pessoal com implicações para o resto da história do Brasil. Mas o poema aponta para um outro lado: a deposição como sacrifício que remete à liberdade e ao gozo final, à saída do subjugo do ego.

Em Minimália, portanto, o menos é mais.

Assim, Ricardo mais se acrescenta quanto mais iluminação lança sobre si mesmo, e sobre nós.

Ricardo Leão strikes again.

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