Poesia contemporânea – NATHAN SOUSA, DEMÉTRIOS GALVÃO E CARVALHO JÚNIOR

Três poetas com cuja obra me deparei recentemente, imprescindíveis para quem quer conhecer o que está sendo produzido atualmente no Brasil e que estão contribuindo para tecer um novo revigoramento da poesia brasileira atual, independentemente das grandes editoras ou dos roteiros de sempre, espalhando a coisa em efervescência:

 

NATHAN SOUSA (PI) – poeta de pegada logopaica (Ezra…) como ele mesmo se reconhece. De linguagem concisa, faca precisa em sua poética de re-velação do eu cindido e da libido sublime. É um poeta exigente, que só deflagra em sua escrita o que está no nível da excelência. (Nathan, premiadíssimo, foi finalista do Prêmio Jabuti deste ano, com o livro “Um Esboço de Nudez”)

DEMÉTRIOS GALVÃO (PI) – poeta de pegada surrealista (mas nem sempre), desde que esse surrealismo tenha como fundo o histórico, as espinhas humanas, as coisas mínimas, os trânsitos cotidianos que se bifurcam e se encantam na linguagem para a transcendência do dizer que ultrapassa o banal. Para Demétrios, “ainda é possível esticar o mundo com a palavra poética” (poema “esticar o mundo” – livro bifurcações)

CARVALHO JÚNIOR (MA) – poeta de pegada irônica, que (no que tenho em mãos, já que se pode esperar ainda muita coisa desse forno poético inicial) flagra o instante sensível e o transfigura. Ou pega a transfiguração já dada no dito comum e a transforma em espanto poético. Suas imagens e sua linguagem caminham do universo lúdico à crítica do homem patético e desmemoriado.

NOVO INSTANTE
[para Carmencélia]

Deparo-me
novamente
com o espelho

e mais uma vez,
no mesmo instante
do reflexo,
dá-se o espanto.

– Como posso ser tantos
e tão outros,
sendo apenas eu? – pergunto.

Mas perguntar a quem,
se entre o que eu vejo
e o que pensam de mim
não há mais ninguém?

(há um ‘eu’
e eu não
o reconheço
como sendo meu)

Mas se ainda penso
– e se o que vejo
não corresponde
ao que conheço –
falta-me
(talvez)
outro modo
de invenção.

Ou será que eu
é que sou
– como As meninas,
de Velásquez –
o reflexo
do reflexo
da visão?

 

(Nathan Sousa – UM ESBOÇO DE NUDEZ, Editora Penalux, 2014)

 

****

MATADOURO

a província diz não aos seus filhos,
é rude e árida, mesmo quando farta e molhada,
entoa liturgia de campo arrasado.

a província tem canto maldito.
não hospeda sementes em seu leito.
exporta desertos para quem mal diz sua sina.

a província é geografia esquecida.
nenhum coração palpita por seu mapa.
nas suas rotas corre sangue de matadouro.

a província deflagra dizimações.
cultiva um cemitério vasto.
sisuda e quente, cozinha a própria cria.

(Demétrios Galvão – BIFURCAÇÕES, Editora Patuá, 20140

 

****

Recado ao Anjo Gabriel (A Garcia Marques)

um dia, amigo alado, se não fizer das putas tristes como tu…
farei memória das minhas pautas tristes.

 

Renovo

palavrinhando e passarinhando por dentro
meu silêncio significa que estou mudando de penas

 

Piquenique

sou tão irrelevante na vida dela quando um copo plástico
que ela esqueceu num irrelevante piquenique da infância.

 

Pica-pau

de tanto levar bicada, resolveu reagir à palmeira
entrou no pau o pica-pau, saiu de cabeça vermelha

 

Dúvida em viagem de Caxias a São Luís

arde um sol da macaca no quilômetro dezessete
o que arderá no sessenta e nove?

 

(Carvalho Júnior – DANÇA DOS DÍSTICOS – Editora Patuá, 2014)

 

 

Um comentário sobre “Poesia contemporânea – NATHAN SOUSA, DEMÉTRIOS GALVÃO E CARVALHO JÚNIOR

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